quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Pernoitando no Lago Tapari


Em 16 de fevereiro de 2014 pernoitei no Lago Tapari. O video faz um giro de 360° em torno do barco Nheengatu, mostrando minha posição [1].

Mas eu não estava sozinho no lago, pela manhã descobri que me acompanhava um grupo de trinta-réis-grandes (Phaetusa simplex), que se acomodou em galhos sobre a água, para maior segurança contra predadores terrestres.





[1] Lat 02°26'20"S, Long 054°53'20"W
Coordenadas no Datum WGS'84

Video e Foto: (C) Nelson Wisnik, 2014



Chegando ao Rio Tapajós via Furo do Jari


O Furo do Jari é um canal natural de 14,7 milhas náuticas (~27,2km) que tem início no rio Amazonas [1] e termina no meio do rio Tapajós [2].

O Furo do Jari dá acesso fluvial às comunidades de Carariacá e Arapixuna.


Ao chegar à Ponta do Jari, no final do Furo, este se abre à imensidão do Tapajós, com cerca de 13km de largura neste ponto.


[1] Lat 02°10'41"S, Long 054°52'53"W

[2] Lat 02°21'33"S, Long 054°54'40"W
Coordenadas no Datum WGS'84

Video: (C) Nelson Wisnik, 2014


Navegando no Canal do Sururú



O Canal do Sururú foi dragado à mão, ligando a enseada das Araras, no rio Tapajós, ao Furo do Jari, canal natural que conecta o rio Amazonas ao rio Tapajós, à montante de sua foz.

O canal é uma alternativa mais rápida a quem precisa subir o rio Amazonas a partir de Santarém, evitando a navegação contra-correnteza até a saída em Carariacá.

Video: (C) Nelson Wisnik, 2014

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Carta dos Povos Indígenas participantes do IX Congresso Brasileiro de Agroecologia


Belém, 01 de outubro de 2015. 


Há séculos nós, povos indígenas, desenvolvemos práticas que hoje são chamadas de agroecológicas. Nossas cosmovisões e saberes ancestrais, concepções fundantes das histórias que dão origem à existência de cada um de nossos povos, possuem uma relação intrínseca com os elementos da natureza, fogo, ar, terra e água.

Com a chegada dos colonizadores, invasores, com suas naus, exércitos, doenças e propostas estranhas ao nosso modo de vida, o equilíbrio que antes havia foi se perdendo. Deu-se lugar, de maneira forçada, a um modo de vida cujo centro pauta-se nos esteios do chamado sistema capitalista, consumista e produtivista, destruindo nossos rios, florestas e bem viver.

Junto a isso segue o genocídio de nossos povos. Desde o período da colonização europeia milhões de parentes foram diretamente assassinados ou simplesmente expulsos de seus territórios, morrendo lentamente, mesmo que inúmeras guerras de resistência tenham sido travadas por nossos povos guerreiros.

Entendemos que não é possível haver verdadeiro equilíbrio ambiental e agroecologia, sem que antes nossos territórios estejam demarcados, livres e desimpedidos de intrusos e depredadores da natureza; sem que nossos povos tenham saúde e educação pautada nos princípios que norteiam nossas visões de mundo e modo de vida; sem que nossos parentes deixem de ser mortos por pistoleiros e policiais a mando de madeireiros, fazendeiros, políticos corruptos e representantes do estado brasileiro.

Entendemos claramente que existe uma conspiração dos três poderes da república, executivo, legislativo e judiciário, para eliminar os povos indígenas do território do Brasil. A saída para isso é a articulação coordenada e ampliada de todos os povos indígenas do país, em uma luta de resistência e proposição.

O Governo brasileiro tem um discurso que não se realiza na prática, demonstrando que não possui real interesse pelas causas indígenas, priorizando os grandes latifundiários e o mercado financeiro, por isso tem como Ministra da Agricultura uma das maiores latifundiárias e destruidora das florestas do país, Kátia Abreu, e como Ministro da Fazenda um ex-dirigente do Banco Bradesco, Joaquim Levy.

Enquanto isso o governo se vangloria de estar trazendo para o Brasil os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, gastando milhões de reais enquanto nossos parentes são massacrados durante o processo de retomada de seus legítimos territórios.

O Congresso Nacional, paralelamente, tem aprovado inúmeras leis anti-indígenas, são Propostas de Emendas Constitucionais (PECs) e leis que retiram direitos históricos dos povos indígenas, como a PEC 215, que busca entregar ao próprio congresso (declaradamente anti-indígena) a responsabilidade pela demarcação de nossas terras e também dos povos tradicionais, e o novo código mineral, que procura, com o apoio dos partidos da base do governo, tornar legal a exploração mineral e a construção de grandes hidrelétricas em nossos territórios. Tudo isso sem consultar os povos indígenas.

Entendemos que a única saída para essa série de ataques é a construção de uma unidade histórica entre todos os povos indígenas do Brasil, numa perspectiva autonômica, independente, pautada em nossa cosmovisão, princípios e práticas que negam tanto o individualismo que nos impede de ver além de nos mesmos, quanto a deformada e forçada concepção coletivizadora, que nos engessa, negando a possibilidade da diversidade e pluralidade. Em contraposição ao universo, apresentamos o multiverso, a construção do bem viver.

Nesse sentido, acreditamos que nós devemos ser os autores únicos de nossa própria história, escrevendo nossas páginas sem depender de órgãos governamentais ou instancias de decisão externas a nossa própria forma de organização. Temos o direito de garantir nossas próprias estruturas e estratégias de segurança, nos defendendo dos ataques de jagunços e pistoleiros que agem a mando daqueles que querem roubar nossos bens naturais. Devemos fazer nossa própria demarcação de terras, autodemarcação, de acordo com nossos parâmetros e necessidades, sem depender de ninguém para que isso seja feito.

Tudo isso se justifica, pois atualmente não estamos somente sendo explorados, mas sim massacrados pelo agronegócio, entre outras forças, que buscando ampliar seus espaços, derrubando a floresta, implementando monocultura e gado, não exita em nos eliminar fisicamente, homens, mulheres, idosos e crianças indígenas.

Igual como foi feito com nossos conhecimentos tradicionais, roubados pelos não índios, também devemos aprender a usar as novas tecnologias a nosso favor, facilitando nossa comunicação e articulação com outros parentes, mesmo àqueles que moram em locais muito distantes de onde estamos, porém devemos saber também que é necessário tomar cuidado com esses instrumentos, pois muitas vezes eles são usados para nos monitorar e até mesmo para nos criminalizar.

Reafirmamos que não é possível fazer uma plena e real agroecologia em nossos territórios sem que todos os graves problemas aqui apontados sejam superados, de outra forma, faremos somente ações parciais, totalmente insuficientes na construção do equilíbrio ambiental e social, necessários e urgentes.

Não podemos concluir este documento sem expressar nossa mais completa indignação com o genocídio que os povos indígenas vivem hoje no Brasil, incluindo aqueles expulsos de suas terras pelos grandes projetos de infra-estrutura. Também não podemos deixar de afirmar nossa total solidariedade à Nação Guarany-Kaiowa, povo que neste exato momento é vítima de um etnocídio implementado pelo estado brasileiro em aliança com latifundiários e outras forças políticas e econômicas do Mato Grosso do Sul e do Brasil. Exigimos que essa agressão cesse imediatamente e convocamos todos os parentes a se somarem a luta dos Guarany-Kaiowa. Somos todos Guarany-Kaiowa.
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terça-feira, 20 de março de 2012

os Geoglifos da Amazônia Ocidental

geoglifos amazonia ocidental estado do acre determinismo ecologico complexidade social Schaan, D. Meggers, B.J.
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Em artigo à Revista de Arqueologia, Schaan, D. et al. [1], em um trabalho conjunto da Univ. Fed. do Pará, Univ. Fed. do Acre, Univ. de Helsinque e Prefeitura Municipal de Rio Branco (AC), apresenta um conjunto de evidências arqueológicas, as quais, segundo seu entendimento, contradizem a premissa atualmente aceita do "determinismo ecológico" como fator restritivo ao atingimento de níveis socioculturais complexos por parte das comunidades humanas residentes em áreas de floresta tropical.
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Esse fator ecológico restritivo seria resultante de três condições ambientais: um "estresse climático cíclico", advindo da alternância entre meses de estiagem e de chuvas abundantes, a "pobreza do solo", resultando em baixa produtividade orgânica, e a "escassez de proteína animal", visto que, na Amazônia, a fauna não é abundante e se encontra dispersa nas diferentes sinúsias que lhes servem de nichos alimentares. Nestas condições o sustento da vida seria uma tarefa difícil, uma contínua busca por alimento, restringindo os momentos de reflexão e criatividade, reduzindo seus habitantes humanos a meros "horticultores de coivara semi-sedentários" (agricultura de coivara é aquela na qual uma área da floresta é desmatada e queimada, preparando-a para ser plantada, método ainda muito praticado atualmente), o que é um anacronismo pois, segundo Alexandre Rodrigues Ferreira, a prática da coivara, roçar e queimar, foi introduzida pelos portugueses e, posteriormente, adotada pelos nativos [2].
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Essa corrente de pensamento, que não foi confrontada com argumentos contrários expressivos até meados do século XX, predominava nos estudos sobre a ocupação humana na Amazônia, onde os fatores ecológicos são superlativos.
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Embora Meggers, B.J. [3] venha a admitir, posteriormente, uma diferenciação entre as áreas de várzeas e as de terra firme, mantém-se o fator ecológico restritivo para estas últimas. As várzeas são áreas sazonalmente alagáveis pelos rios de águas brancas (p. ex. rios Amazonas e Madeira) que carreiam grande quantidade de sedimentos, os quais, decantados sobre o solo durante a vazante, o fertilizam. Áreas alagáveis por rios de águas escuras (p. ex. rios Negro e, Trombetas) ou claras (p. ex. rios Tapajós e Xingu), rios estes que não proporcionam a sedimentação, são chamadas igapós.
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Antes do final do século XX, estudos de comunidades do alto Rio Xingu mostraram que estas, embora sediadas em terra firme, desenvolveram alguma complexidade sociocultural relevante, ainda que não ao nível das comunidades das várzeas.
Também, nas duas últimas décadas do século XX foram descobertos, em áreas de terra firme de interflúvios e em cotas elevadas (200m), sítios arqueológicos que apresentam estruturas geométricas de grandes dimensões em formatos circulares, elipsoidais, quadrados, retangulares ou lineares, simples ou compostos, com centenas de metros de extensão, formadas por "trincheiras e montículos" contíguos, sendo estes construídos a partir das escavações daquelas.
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Dentro dos limites dessas estruturas foram encontrados, em diferentes profundidades, fragmentos de cerâmica, instrumentos líticos e ossos, evidenciando sepultamentos cerimoniais. Análises e datação dos achados arqueológicos apontam para ocupação humana prolongada e em diferentes épocas, chegando a vinte séculos pretéritos, caracterizando, ainda, diferentes tradições culturais.
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Várias propostas foram formuladas com relação à motivação para a construção de tais estruturas, as quais, certamente, consumiram grande energia e tempo para sua implantação, entretanto, o cenário montado a partir das evidências espaço-temporais não permite nenhuma conclusão indiscutível.
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Devido às suas grandes dimensões esses sítios arqueológicos passaram a ser chamados geoglifos, são de fácil visualização a partir de um ponto elevado, seja por avião ou mesmo por satélite.
Estruturas com as dimensões encontradas nesses sítios arqueológicos requerem planejamento, logística e grande quantidade de energia física para sua execução, depreendendo-se a necessidade de grande quantidade de pessoas. A disponibilização de pessoas para executar a construção das estruturas requer, por sua parte, disponibilização de alimentos. Assim, certa quantidade de agricultores e caçadores teria que conseguir alimento de maneira superavitária possibilitando sua distribuição aos que trabalhavam na construção das estruturas. Para tanto, o ambiente ecológico de terra firme não poderia, a princípio, ser um fator restritivo, contradizendo a premissa vigente.
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Apesar de suas grandes dimensões os geoglifos somente são observados quando localizados em áreas desmatadas, alguns deles, situados na fronteira entre a floresta e o campo aberto, são observados parcialmente. Não há estimativas de quantos geoglifos ainda estão encobertos pela densa vegetação da floresta.
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Está se procedendo a um esforço para sistematizar os achados quanto às épocas de ocupação e tradições socioculturais mas, embora a quantidade de geoglifos identificados e de materiais coletados seja grande, o trabalho ainda está no início.

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Na foto, obtida a partir do Google Earth, vê-se o Sítio Sapucaia (AC-IQ-12), construído como um quadrado com 125m de lado, onde atualmente passa uma estrada vicinal, a cerca de 3km da rodovia BR-317, não muito longe de Rio Branco, capital do estado. Sua localização geográfica é 9°52’54”S, 67°25’06”W (Datum WGS’84). [4]

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Estudo com novas descobertas sobre os geoglifos foi publicado na revista Nature Communications. [5]

[1] SCHAAN, D. et al. 2007. Geoglifos da Amazônia ocidental: evidência de complexidade social entre povos da terra firme. Revista de Arqueologia, 20: 67-82.
[2] FERREIRA, A.R. 1785. Diário da Viagem Philosophica - Participação Sétima, RIHGB, Vol.49: 198-199
[3] MEGGERS, B.J. 1971. Amazonia: man and culture in a counterfeit paradise. Chicago, Aldine Atherton.
[4] PIVETTA, M. 2011. A Cultura dos Geoglifos. Pesquisa FAPESP, 186: 80-83

[5] de Souza, J.G. et al 2018. Pre-Columbian earth-builders settled along the entire southern rim of the Amazon. Nature Communications Article 1125 (2018)

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domingo, 8 de maio de 2011

compania, às vezes nervosa

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Nossas companias na Amazônia podem ser nervosas mas, se tratadas com respeito, nos respeitarão também.
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Quando amarrei o barco Nheengatu a um arbusto no abrigo em frente à cidade de Santarém eu não havia percebido apresença das cabas (marimbondos). A cada movimento do barco elas se agiavam, mas não ocorreu nenhum incidente.
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Video: (C) Nelson Wisnik
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sábado, 23 de abril de 2011

danos à margem da Ponta Negra em Santarém PA

.degradação da vegetação, Santarém, rio Tapajós, Ponta Negra

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O video mostra um comboio de óleo formado pela balsa EDL-II e pelo empurrador EDL-VII (Manaus AM), encalhados contra a margem do rio Tapajós logo acima de sua foz, na várzea da Ponta Negra em frente à cidade de Santarem.
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Esta técnica de encalhe, muito comum na região amazônica, causa grande degradação na vegetação das margens.
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O video foi feito a partir do barco Nheengatu em 25 de fevereiro de 2011.

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Manifesto Munduruku

Nós, povo Munduruku, que ocupamos as terras indígenas do médio e alto Tapajós, em um total de 13 mil índios, nos municípios de Itaituba, Tr...